Whitehead e a ciência

05/07/2024 12:41

 

“Alfred North Whitehead detalha algumas das condições históricas necessárias à ascensão da tecnociência: segundo suas observações, a natureza em si daquilo que antes era pensado como “ciência” sofreu uma mudança fundamental no século XIX. A pesquisa científica passou a ser significativa e valiosa principalmente por seu potencial para a geração de alguma aplicação, produto ou técnica prática. “A maior invenção do século XIX foi a do método da invenção”, escreveu um cáustico Whitehead. A ciência definiu a si mesma não com base em princípios, mas em resultados. Ela passou a ser “um óbvio celeiro de ideias a serem utilizadas”, o que evidentemente significava aplicações comerciais e lucrativas. O autor notou o surgimento, no final do século XIX, de métodos mediante os quais o conhecimento abstrato poderia ser conectado à tecnologia e a sequências intermináveis de inovação. Ele identificou a Alemanha como o país em que as “ilimitadas possibilidades do progresso técnico” se concretizaram primeiro. Ao apresentar essas ponderações em 1925 em suas Lowell Lectures, em Harvard, Whitehead foi gentil demais para destacar o óbvio: que o “método da invenção” era inseparável da ascensão do capitalismo industrial e da voracidade de suas exigências. A vocação da ciência capitalista de Estado moderna (que Whitehead, Max Weber, Helmuth Plessner e outros haviam identificado na década de 1920) claramente nos deixou à beira da catástrofe com sua torrente de “ideias a serem utilizadas”. Atualmente, a glorificação estridente da “ciência” é uma manobra desesperada de ofuscamento voltada a adiar um reconhecimento mais amplo da inseparabilidade desastrosa entre ciência ocidental e capitalismo e, ao mesmo tempo , promover a ilusão de que a “ciência” nos salvará de seus próprios feitos calamitosos, sobretudo nos desdobramentos atuais do sistema terrestre.”

 

Jonathan Cray, Terra arrasada: Além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista