Speriamo che l'inferno sia vuoto

13/11/2019 12:27

"Em vista disso tudo, é compreensível que inúmeros cristãos só tenham podido acolher doutrinas de Agostinho mediante a negação de seus aspectos insuportáveis. A história da fé cristã desde a fase inicial da Idade Média não foi senão uma série de tentativas de cobrir dimensões sinistras do legado agostiniano com as tintas de uma interpretação mais confiável da pergunta pelas chances humanas de salvação. Era muito difícil que um cristão tivesse o necessário sangue-frio para obter clarexa a respeito da razão pela qual, na era dominada pela teologia de Agostinho, o céu necessariamente permanecia vazio - ao menos no que se refere aos seus coabitantes humanos. Foi a era dos descobrimentos que, pela primeira vez, propôs aos crentes a missão de explorar o continente quase intocado da magnanimidade divina. A partir dessa época, procurou-se apresentar o além da proximidade divina como uma região densamente povoada - Dante deve ter sido um dos primeiros que, em sua viagem ao céu, não encontrou apenas uma cidade fantasma. O estado atual da busca por um Deus generoso é expresso pela conhecida sentença do papa da Polônia: "Speriamo che l'inferno sia vuoto"  (Esperamos que o inferno esteja vazio). Na antítese entre Agostinho e João Paulo II está condensado todo drama da teologia cristã: ela caracteriza o longo caminho que vai do segredo terrorista bem guardado da fé, segundo o qual Deus ficou praticamente sozinho no céu, até a hipótese de matriz civil-religioso, segundo o qual no futuro o inferno - em cuja existência somos instados a continuar acreditando por causa da 'longinquidade de Deus' - talvez esteja vazio."

 

Peter Sloterdijk, O zelo de Deus - sobre a luta dos três monoteísmos

 

 

 

 


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