O modelo universitário

03/06/2024 12:06

 

“O modelo de Wilhelm von Humboldt  (representado pela fundação da Universidade de Berlin, em 1809) pôde se impor nas sociedades ocidentais não apenas por prometer realizar expectativas de emancipação através de uma formação de cunho humanista, mas principalmente por ser uma tecnologia estatal de reação contra a sedição revolucionária. Ou seja, a integração da classe intelectual à universidade será uma forma de responder aos riscos de sedição que a circulação de ideias de transformação radical representava desde a Revolução Francesa. Não por outra razão, um número impressionante de intelectuais radicais verá as portas lhe serem fechadas no interior da universidade alemã do século XIX: Feuerbach, Bruno Bauer, Marx. Pois a integração terá sempre que lidar com certos limites que só poderão ser incorporados tempos depois, através de caminhos tortuosos. Ou seja, nosso modelo universitário é fruto de uma reação. Foi essa a maneira que o Estado encontrou para paralisar a força revolucionária da aliança entre classe intelectual e camadas populares. Já Edmund Burke reclamava de como as ideias abstratas dos filósofos haviam chegado às massas e criado toda forma de violência política. Quem criou a universidade moderna pensava o mesmo.”

 

Vladimir Safatle (1973-) filósofo e professor brasileiro em Alfabeto das Colisões