Aleatório, arriscado e incompleto

14/07/2016 15:11

"Eu não consigo ver evidências que sugiram que a vida humana não seja algo aleatório. Existem muitos caminhos e objetivos na vida, mas não existe caminho geral com garantia externa ou objetivo do tipo que os filósofos e teólogos costumam procurar. Somos o que parecemos ser; criaturas passageiras e mortais, sujeitas às necessidades e ao acaso. Isto é para dizer que, na minha visão, não existe Deus no sentido tradicional deste termo; e o sentido tradicional é talvez o único sentido. Quando Bonhoeffer diz que Deus quer que vivamos como se não houvesse Deus, eu suspeito que ele empregou mal as palavras. Igualmente os vários substitutos metafísicos de Deus - Razão, Ciência, História - são deidades falsas. Nosso destino pode ser analisado, mas não pode ser justificado ou totalmente explicado. Nós simplesmente estamos aqui. E se existe algum tipo de sentido ou unidade na vida humana, e o sonho disso não cessa de nos perseguir, deve ser de algum outro tipo sentido e deve ser procurado dentro da experiência humana, que nada tem fora de si."

"Aqui encontramos a extraordinária redenção de nossa tendência de ocultar a morte e o acaso pela invenção das formas. Qualquer história que contamos sobre nós mesmos nos consola já que impõe padrões sobre algo que de outra forma pareceria intoleravelmente arriscado e incompleto. Todavia, a vida humana é arriscada e incompleta. É o papel da tragédia, da comédia e da pintura retratar sem emoção o nosso sofrimento e a morte sem consolo. Ou se existe algum consolo é o consolo austero de uma beleza que ensina que nada na vida tem valor, exceto a tentativa de ser vituoso."

 

Iris Murdoch, Existencialistas e mísiticos ("Existentialists and mystics", tradução e adaptação de Ricardo E. Rose)


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